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Passarinha – Kathryn Erskine

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Acabamos de ler um livro daqueles que dá vontade de comprar vários e sair distribuindo. Uma obra de palavras simples, diagramação perfeita, capa e contracapa que tocam e despertam a curiosidade e um conteúdo extraordinário: estamos falando de Passarinha, livro de Kathryn Erskine.

As palavras emanam tanto sentimento que além de ensinar traz um novo olhar do mundo. Passarinha lembra MUITO o Lu. Tem coisas que a gente não sabe que ele sabe mas quando ele coloca suas palavras para fora da mente ele faz a gente sair da zona de conforto e repensar nossas atitudes. Essa sinceridade dos autistas para muitos é falta de educação mas para nós é o contrário: educar sem rodeios, com lealdade e amor.

“Embora eu não gostasse da empatia ela é uma coisa assim que chega sem avisar e faz você sentir um calorzinho gostoso no coração.”

A gente tem mania de falar que falta empatia para os autistas, que eles não sabem se colocar no lugar dos outros, mas através dos pensamentos de Scout (apelido da personagem principal) podemos perceber que nós não somos empáticos com os autistas. Queremos que eles sejam do jeito que a maioria é, até nas coisas erradas como “aprender a mentir pra satisfazer o próximo”. Julgamos muito e exigimos deles coisas que a gente não faz tipo “não gritar ou agredir” sendo que, em muitos momentos, também perdemos a calma.

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O resumo do livro conta que no mundo de Caitlin, tudo é preto e branco. Qualquer coisa entre um e outro dá uma baita sensação de recreio no estômago e a obriga a fazer bicho de pelúcia. É isso que seu irmão, Devon, sempre tentou explicar às pessoas. Mas agora, depois do dia em que a vida desmoronou, seu pai, devastado, chora muito sem saber ao certo como lidar com isso. Ela quer ajudar o pai – a si mesma e todos a sua volta –, mas, sendo uma menina de dez anos de idade, autista, portadora da Síndrome de Asperger, ela não sabe como captar o sentido.

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Caitlin, que não gosta de olhar para a pessoa nem que invadam seu espaço pessoal, se volta, então, para os livros e dicionários, que considera fáceis por estarem repletos de fatos, preto no branco. Após ler a definição da palavra desfecho, tem certeza de que é exatamente disso que ela e seu pai precisam. E Caitlin está determinada a consegui-lo.

Temos que parabenizar a tradutora Heloísa Leal pois a obra é construída através de jogos de palavras e referências, como o filme “To Kill A Mockingbird” (O Sol É Para Todos), que terá grande relevância para se compreender o próprio título do livro. No começo há uma nota que explica a beleza dessa trama e um pouco sobre o filme (achamos um post legal aqui).

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No capítulo 13 Caitlin explica sobre o filme e sobre as comparações da família dela com a do filme que conta a história de um pai que cuida de dois filhos sozinho já que a esposa morreu como aconteceu com a família dela. O filme, claro, é preto e branco e ela ama isso.

“Eu gosto das coisas em preto e branco. Preto e branco é mais fácil de entender. Cor demais confunde a cabeça da gente.”

Depois dessa leitura você vai perceber o quanto os autistas nos ensinam, têm paciência conosco e nos ajudam a evoluir. A partir dessa leitura nunca mais somos as mesmas. Um livro sobre compreender uns aos outros, repleto de empatia e com um desfecho comovente e encantador. De risada a lágrimas, esse livro já entrou para a lista dos melhores livros que já lemos na vida. Um clássico!

Fontes:

Minha vida em filmes
Livros e Fuxicos
Bibliophiliarium
No mundo dos Livros
Daninha Farias
Editora Valentina
Amora Literária
Um livro e nada mais

Somos Brilhantes!

Kristine Barnett ficaria muito feliz com o título deste post pois, com certeza, é este o seu objetivo ao escrever um livro sobre seu filho Jacob, autista e gênio. Ela quer mostrar ao mundo que todos nós temos capacidade para conquistar o que quisermos, para alcançar nossos sonhos e ser feliz. Parece que estamos descrevendo um livro de auto ajuda né? Mas “Brilhante” vai muito além disso… É uma leitura compulsiva de uma história real em que o principal tema é a crença no potencial.

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Diversas vezes choramos, em outras demos gargalhadas mas TODOS OS DIAS rezamos para que a família Barnett continuasse assim: simples, humilde, felizes e ajudando o mundo a entender que nós somos ferramentas transformadoras do universo! Leiam os trechos abaixo e saberão do que estamos falando:

“MEU NOME É KRISTINE BARNETT e meu filho Jake é considerado um prodígio em matemática e ciências. Ele começou a fazer cursos de nível universitário de matemática, astronomia e física aos oito anos e foi aceito na universidade aos nove. Não muito tempo depois, começou a trabalhar numa teoria original no campo da relatividade. Suas equações eram tão longas que transbordavam do gigantesco quadro branco para as janelas de nossa casa. Sem saber como ajudar, perguntei a Jake se havia alguém a quem pudesse mostrar seu trabalho, e um renomado físico que contatei em nome de Jake concordou generosamente em examinar uma de suas atividades. Ele confirmou que meu filho estava de fato trabalhando em uma teoria original e disse também que, se a teoria fosse consistente, podia colocá-lo no rumo de um prêmio Nobel.”

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“Tínhamos assistido impotentes ao nosso filhinho vibrante e precoce ir gradualmente parando de falar, desaparecendo diante de nossos olhos em um mundo só dele. O prognóstico ia de mal a pior. Aos três anos, o objetivo que os especialistas estabeleciam para ele era que fosse capaz de amarrar os próprios sapatos aos dezesseis anos.”

Kristine fala sobre seu livro:

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O livro não é fantástico apenas por causa de seu filho Jake. Kristine conta sua aventura como uma mãe, que não só luta heroicamente em nome de Jake, mas ela também enfrenta MUITOS outros obstáculos que a vida apresenta pra ela e toda a família. Sem usarmos o exagero, esses obstáculos são extraordinariamente graves… mas vencidos!

Em uma entrevista foi falado a questão de que nem todas as crianças autistas têm a capacidades de Jacob. Perguntaram se Kristine não se preocupava em dar aos pais falsa esperança? “Todo mundo tem capacidades”, responde Jacob. “A questão é quem as reconhece”, acrescenta a mãe. “É o espírito de superação e isso todos nós possuímos”, ela afirma.

O que nos fez apaixonar por este livro foi que nos identificamos muito com o espírito dessa família: ver o lado positivo de tudo e focar na solução. Já ouvimos muitas críticas sobre isso e várias vezes a frase “Mas vocês falam isso porque o irmão de vocês é autista de alto funcionamento”… Bom, Lu era autista moderado (com crises, auto agressão, etc) e evoluiu no espectro. Agradecemos muito todos os profissionais que passaram e estão na vida do Lu mas o maior remédio nesta caminhada foi a crença que temos em seu potencial.

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Sobre o Livro, Jake fala: “Bem, eu espero que realmente inspire as crianças a realmente fazerem alguma coisa, ciências ou física ou mesmo que não seja ciências. Espero que encorajem a fazer o que elas GOSTAM. Espero apenas que seja inspirador.”

O ponto chave do livro é este! Pais de crianças com dificuldades de desenvolvimento, bem como aqueles com filhos típicos colocam suas crianças (adultos, adolescentes) para trabalharem sempre suas DIFICULDADES. E levanta a questão: “Por que é que tudo gira em torno do que as crianças não conseguem fazer? Por que ninguém VALORIZA o que elas PODEM fazer?

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Sobre o autismo, Jake diz ser parte dele e diz que gosta de ser assim. sua mãe explica que Jacob não acordou um dia magicamente “curado” da síndrome. Ele continua a lutar contra isso. Em casa ele sempre senta em um pequeno espaço que o faz se sentir mais confortável. O zumbido das luzes também pode atrapalhar.

“Ele supera todos os dias. Há coisas que só ele sabe sobre si mesmo e ele se auto regula sempre”, disse sua mãe.

Jacob fala facilmente sobre o seu autismo e ri de seus equívocos. Enquanto ele admite que não é fácil captar sarcasmo usado por outras pessoas, ele é rápido para brincar:

“.. Não é fácil, é parte de quem eu sou, mas não é tudo de mim; eu sou um físico”, disse ele.

Quando Jake disse isso, ele ainda não tinha terminado de ler o livro de sua mãe e comentou que esperava gostar da história e que não estava envergonhado.

“Não cometa spoiler“, ele disse rindo!

Kristine Barnett diz que o livro é para qualquer mãe a tentar encontrar um caminho para o seu filho, não apenas para os pais que lidam com o autismo.

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Brilhante é daqueles livros que dá vontade de abraçar, de comprar vários e sair distribuindo amor pra todo mundo! Estas últimas imagens são de Jake com seus irmãos Wes e Ethan e a última da família completa.

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Os direitos dessa maravilhosa história já foram comprados pela Warner e se tornarão filme. Mal podemos esperar para ver esse livro na telona!

“Nós somos apenas uma família normal. Portanto, é realmente bizarro “, disse ela sobre o livro e o filme.” Você sente que tem uma responsabilidade pública para inspirar e ajudar as pessoas. Mas no dia-a-dia, você é só você. ”

Fontes:
Folha de São Paulo
TruthDig
Usa Today
The Globe and Mail
Botõezinhos

Parenthood

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Nos Estados Unidos existe uma estatística que mostra que 1 em cada 88 é autista. Esse número é alarmante e temos que fazer alguma coisa para que o mundo fique consciente sobre a síndrome, para que as crianças sejam diagnosticadas mais cedo, para que elas tenham o tratamento que merecem e para que o preconceito diminua cada vez mais. A forma mais fácil de isso ocorrer é ter a mídia do nosso lado. A televisão as vezes é lenta para tal mas alguns dos desafios enfrentados pela população autista tem inspirado alguns escritores de TV, que estão cada vez mais criando personagens excêntricos cujas peculiaridades parece se alinhar com características típicas do autismo: “The Big Bang Theory”, “The it Crowd”e “Community ” são algumas delas. Esses personagens nunca foram diagnosticados, mas eles são inteligentes, focados e apaixonados por determinados assuntos, teimosamente rígidos, e precisam se esforçar para relacionar com outras pessoas, são confusos com expressões idiomáticas, sarcasmo ou outras regras de interação social que são naturais para a maioria das pessoas típicas.

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Parenthood é uma série de televisão Americana de comédia e drama, baseado no filme com o mesmo nome realizado em 1989. Criada por Jason Katims, inicia-se com um elenco de luxo entre os quais Peter Krause, Lauren Graham, Dax Shepard, Monica Potter, Erika Christensen, Sam Jaeger, Savannah Paige Rae, Sarah Ramos, Max Burkholder, Joy Bryant, Tyree Brown, Miles Heizer, Mae Whitman, Bonnie Bedelia e Craig T. Nelson. A história roda à volta da família Braverman que já conta com 3 gerações, e retrata o seu dia-a-dia, o choque entre as várias idades e os problemas de cada um.

Desde a primeira temporada, “Parenthood” fomos atingidas por Max Burkholder, que desempenha o papel de Max Braverman, um jovem cujo diagnóstico da síndrome de Asperger pegou sua família de surpresa. É o mais profundo e franco enredo sobre uma criança que está no espectro autista.

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O produtor Jason Katims fala a respeito da série: “Quando comecei a escrever o piloto de “Parenthood” eu queria tocar em temas e histórias que eu me também me envolvesse. Queria um programa de televisão que durasse muitos anos, então precisaria de personagens e material que eu tivesse muito embasamento para falar. Eu tenho um filho de 13 anos de idade com Síndrome de Asperger. Naturalmente falo muito sobre a minha experiência para fazer “Parenthood”. Tem sido difícil às vezes, mas me aprofundei como pessoa. Isso me mudou. Foi um pouco assustador por várias razões, mas no final do dia eu estava agradecido e meus parceiros de produção foram muito favoráveis.

Várias linhas dessa história fazem parte de minhas experiências. No entanto, tenho o cuidado de fazer o personagem de Max não como meu filho – há diferenças na forma como se apresentam, quando foram diagnosticados, etc É importante para mim para proteger a privacidade do meu filho. Eu e minha esposa estamos muito mais expostos, já que as histórias são realmente contadas do ponto de vista dos pais: o que é para eles e o que eles passam. Eu tive um feedback muito positivo, até mesmo dos pais que possuem crianças com Síndrome de Asperger e autismo, o que me faz pensar que tivemos um bom começo.”

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Parenthood tem atores mirins maravilhosos. Principalmente quando direcionamos nossos olhares para Max Burkholder. Sempre que vamos ver algum ator fazer o papel de um autista ficamos com muita expectativa e também um certo medo. É difícil encontrar um ator mirim capaz de ser natural e confortável para atuar em um papel qualquer, ainda mais pedir para um menino com 11 anos de idade retratar fielmente um transtorno que seria difícil até para um adulto culto fazer. Além de mostrar seu potencial de trazer uma descrição exata desta síndrome, Max trouxe luz para a série que transmite, de forma brilhante sobre o dia a dia (dificuldades e felicidades) de uma família com uma criança autista.

Photobucket Max Burkholder não é apenas talentoso, ele é um ator muito sério. Ele leu livros sobre o autismo e foi um participante ativo em conversas sobre o tema.
Max dominou as manifestações físicas do seu personagem: A falta de contato com os olhos, a falta de expressividade em seu tom de voz, um pouco de qualidade “off” em suas interações com os outros. Em seguida, houve idiossincrasias de sua personalidade: a sua intolerância para com o mundo em torno dele, sua intolerância para inconsistências em sua agenda, sua impaciência com os outros, sua falta de empatia.

Ele foi ótimo desde o primeiro episódio e como a série progrediu a representação de Max apenas aprofundou. “Um dos aspectos mais inspiradores para um escritor de televisão é ver o ator “pegar fogo” em um papel. Vendo Max tão fechado para o personagem, me senti inspirado para elaborar, ainda mais, suas histórias”, conta Jason Katims.

Em uma idade muito jovem, Max fez mais do que apenas entreter (ele chega a encontrar o humor no papel): Ele tem ajudado as famílias a compreender as crianças como Max Braverman – famílias, que possuem um parente com o mesmo dianóstico reconheceram o seu próprio filho, irmão, neto ou sobrinho no personagem.

Max ajudou a destigmatizar a vida de muitas famílias que lidam com o autismo. Ele também abraçou a natureza pública do seu papel, participando de eventos de caridade incontáveis ​​para apoiar a família azul. Sempre perguntam: “Você tem síndrome de Asperger?” Quer elogio maior que este para um ator?

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Monica Potter admitiu que ela “não tinha idéia de que teria um impacto tão grande”, quando ela assumiu o papel de uma mãe com uma criança autista em “Parenthood “. Assim, muitas pessoas se aproximam dela para lhe agradecer por ajudar a levar esta questão ao público, incluindo um fã que deixou para ela um bilhete enquanto ela estava fazendo compra de mantimentos. A atriz disse que carrega a mensagem com ela para sempre.

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A série é diversão certa para qualquer pessoa. Nada melhor do que chegar em casa, colocar o DVD e começar a assistir as confusões e momentos felizes dessa da bela família Braverman. Hora estamos rolando de rir, hora estamos chorando de emoção. Compramos as 3 primeiras temporadas (está na quarta) e pode apostar que entra pra lista de melhores presentes que já nos demos! Vale a pena demais assistir. Antes de adquirir os dvds, baixávamos aqui. Nunca conseguimos assistir apenas um episódio. Em segundos a gente vai se envolvendo e pronto… é difícil sair de frente da TV. Além do autismo, outros temas são abordados e você com certeza vai se identificar em alguma parte da história ou com algum personagem. A vontade que dá é abraçar cada ator, cada pessoa que produz essa série e agradecer. Muito obrigada por nos proporcionar esse mix de sentimentos maravilhosos ao ver uma série tão bem produzida! 5 estrelas!

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fonte:
Imagens:

SFGate
Zap2it
The Waschington Times
Autism Learning Felt
Mannlymama
Portugal Series

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The Holywood Reporter
Autism Speaks Oficial Blog
Gold Derb
EspecialEDpost

Autismo em resenha – filme Um Certo Olhar (Snow Cake)

PhotobucketUm Certo Olhar/Snow Cake
De Marc Evans, Canadá-Inglaterra, 2006.
Com Alan Rickman (Alex), Sigourney Weaver (Linda), Carrie-Anne Moss (Maggie), Emily Hampshire (Vivienne Freeman), James Allodi (Clyde)
Argumento e roteiro Angela Pell
Fotografia Steve Cosens
Música Broken Social Scene
Produção Revolution Films, Rhombus Media, 2 Entertain Video, Alliance Atlantis Communications, BBC Films. DVD Imagem Filmes.
Cor, 112 min

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O post de hoje é sobre o filme Snow Cake, que tem como título em português “Um Certo Olhar” e conta a história de Alex Huges (Alan Rickman), um homem com problemas pessoais que resolve dar carona a Vivienne (Emily Hampshire), uma jovem que quer voltar para casa e os dois se envolvem em um acidente de carro e a menina morre. Alex se sente na obrigação de falar com a mãe de Vivienne para explicar o que aconteceu e encontra Linda (Sigourney Weaver), uma autista de alto funcionamento que o faz ter várias reflexões a partir do seu modo particular de enxergar a vida. A partir daí acontece uma história belíssima que podemos dizer que o tema principal é a amizade apesar das diferenças e peculiaridades de cada pessoa. O autismo da personagem principal é um tempero para auxiliar-nos na compreensão do verdadeiro sentido de conexão, do amor incondicional, amor apesar das diferenças e fantasmas do passado que cada um carrega consigo mesmo. Sim, você leu direitinho, o filme não é sobre autismo, é sobre a socialização das pessoas.

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Um Certo Olhar foi produzido de forma independente e escrito por Angela Pell (foto abaixo), que tem um filho com autismo. “Quero que as pessoas vejam o céu, mas eu também quero que elas vejam o inferno que é para a pessoa com autismo.” E vemos isso o tempo todo: ao mesmo tempo que mostra a maneira simples como um autista vê os fatos que acontecem (a mãe tem um olhar bem objetivo e nada sentimental da morte da filha e sabe que deve superar esse fato pois nada a trará de volta), o filme demonstra o quanto isso pode acarretar problemas, já que as pessoas “normais” não têm o mesmo ponto de vista e nem a mesma reação. As dificuldades dos autistas em entender o mundo complicado das pessoas a sua volta e dessas pessoas em entender o mundo simples e direto dos autistas são apresentadas de forma com que nos identifiquemos e compreendamos essa lacuna. Em todos os momentos do filme vemos que o simples e o complicado existem dependendo da maneira como cada pessoa encara, de como ela foi criada, das experiências que cada um passou e isso torna todos os personagens – em um primeiro momento tão únicos e tão diferentes – tão iguais na busca de um mundo perfeito que todos almejam.

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Angela Pell disse que escreveu o filme pensando no ator Alan Rickman e que o protagonista chamaria Alan mas o próprio ator depois que aceitou o papel sugeriu a mudança do nome para Alex. Foi Alan também que indicou o nome de Sigourney para a interpretação de Linda pois disse que ela seria perfeita e eles já haviam trabalhado juntos em “Heróis Fora de Órbita/Galaxy Quest.”

E Alan tinha razão pois Sigourney Weaver interpretou brilhantemente Linda, uma autista de alto funcionamento, que mora sozinha e é independente (inclusive financeiramente), dando à personagem o tom certo de autismo sem deixar o trabalho estereotipado em nenhuma das cenas vistas. O olhar, a mão, a postura, o modo de conversar, de reagir, de demonstrar felicidade (sempre com aquela excitação excessiva dos nossos autistas), as crises, tudo na medida certa. A atriz estudou muito para esse papel e passou quase um ano se preparando. Pesquisou sobre autismo, visitou um instituto especializado e viveu um período com uma autista chamada Ros Blackburn (foto abaixo), pessoa que já faz esse trabalho de interprete dos “dois mundos” com autistas em algumas instituições inglesas e que “emprestou” várias características à Linda como o gosto pelas bolinhas que brilham e pelo trampolim (a famosa cama elástica, que o Lu ama).

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A atriz tentou fazer seu trabalho de pesquisa sozinha mas viu que o autismo é uma síndrome muito vasta, com vários tipos de graus: “É uma condição abrangente e há tantas manifestações diferentes, como nada que você possa imaginar. Quanto mais eu aprendia sobre isso, mais eu sentia que era impossível generalizar”. Por isso Weaver viu a necessidade dessa convivência com Ros, para ter um norte!

Há ainda a personagem chamada Maggie (Carrie-Anne Moss), a vizinha que Linda repele mas que Alex, por outro lado, se envolve dando ao enredo um clima de romance e cumplicidade e fazendo com que a personagem de Alex se desvende a cada cena. Maggie é uma mulher de mente aberta e naturalmente fala e faz o que sente e o que pensa sendo forte o suficiente para arcar com as conseqüências, diferente de Linda (que faz devido à sua falta de verniz social causada pelo autismo) e Alex (que dificilmente se abre com medo de ser julgado pois ele mesmo se julga). Apesar de morar a vida toda na pequena cidade, ela parece ser bem urbana e desconcerta as pessoas que não estão acostumadas com isso. Essa é a peça importante que faz com que Linda e Alex se entendam e conectem.

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Linda, Alex e Maggie

O curioso foi como percebemos a visão otimista que o filme traz o tempo todo. As dificuldades aparecem mas servem como ponte para a união entre as peças que pareciam ser tão diferentes mas se encaixam desvendando o quebra cabeça que o filme apresenta no início. Uma visão bem Son Rise em que as pessoas aprendem a se aceitar como são e a aceitar a condição que têm para ajudar o próximo, dando o melhor mas sem se preocupar em ser o super herói com poderes mágicos que não existem, fazendo milagres impossíveis. O filme todo traz esse sentimento leve e positivo, da brincadeira conectando todos. Quem conhece o son rise o detecta durante todo o filme e ao pesquisar sobre a roteirista, vimos que Angela e seu marido Henry Normal praticavam o programa com o filho de 7 anos (na época) há mais de quatro anos. Não encontramos informação de como estão hoje em dia.

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“As duas coisas mais importantes que o Centro de Tratamento de Autismo da América e o Programa Son-Rise tem me ensinado e que executei no filme são: 1 – é extremamente importante e libertador viver o presente e 2 – podemos decidir como nos sentimos sobre as coisas, podemos optar por encontrar o lado positivo até mesmo nas situações mais desafiadoras.” Angela disse.

Precisamos dizer que adoramos? Quem conhece o son rise capta esse sentimento em muitas cenas! E Angela fez isso de forma brilhante já que o filme traz uma autista de alto funcionamento bem próxima da realidade (sim, existem autistas independentes) e até mesmo pais e parentes de autistas irão identificar isso. Temos a impressão que o filme conta uma história baseada em fatos reais, tamanha pesquisa e perfeição da interpretação de Weaver, da direção super sensível de Marc Evans, com seu olhar equilibrado dosando com primor a carga de humor e drama, e da fotografia de Steve Cosens que na maioria das vezes traz as personagens em cenas de close (com a câmera bem aproximada deles) surpreendentes nos dando aquela sensação de mundo único de cada um.

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Marc Evans – Diretor

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Steve Cosens – Diretor de Fotografia

Uma história que faz a gente pensar e ficar com ela na cabeça para tentar digerir todas as informações e mensagens propostas. Faz a gente querer melhorar como ser humano, julgar menos e agir mais em prol do coletivo, sem se importar com seus problemas, dificuldades, seus erros do passado. O mais emocionante do filme é sentir que não são só nossos autistas (seja em qualquer grau de autismo que se encaixam) que tem seus mundos paralelos, todo mundo cria o seu. Linda nos lembra isso em muitos momentos no jogando na cara o nosso sonhado “perfecto mondo”.

Um filme que recomendamos muito pois nos traz um certo olhar fundamental sobre nossa vida… Aprecie sem moderação esse bolo de neve! É maravilhoso!
É dazlious!

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Fonte:

Autism Bulletim
Tacoma Film Club
About.com
50 anos de Filmes
BBC News

Post dedicado a nossa amiga Iara Fernandes, pessoa que nos indicou essa linda obra!

Echolilia – um fantástico livro de Timothy Archibald

Recebemos um e-mail muito carinhoso de Olga Belém que dividiu com a gente um link interessantíssimo. Antes de falar do link, quero deixar registrado que Olga chegou aqui através do Arquiba Botafogo, blog do meu grande amigo Paulo Marcelo Sampaio. PM adora o Lu e sempre me pergunta como ele está. Através dele e do Botafogo, ganhei mais dois amigos: Rodrigo, do Cantinho Botafoguense e Fábio do Snoopy em Preto e Branco que já divulgaram o autismo em seus blogs! Agora ganhei a amizade de Olga, de uma família de 3 gerações de botafoguenses (ela é da 2ª). Já que introduzi falando do Fogão, quero deixar registrado também o agradecimento ao Yuri Sun que faz parte também da torcida preta e branca. Yuri manda, do Rio, todos os grãos orgânicos que Lu precisa na sua alimentação. Obrigada, Estrela Solitária, por iluminar o caminho da evolução do Lu!

Pesquisar e escrever sobre autismo é muito legal. Quando recebemos um link e pesquisamos mais profundamente sobre o assunto, ficamos loucas por não saber como começar de tanta informação interessante. No caso desse projeto, já estou amocionada e nem comecei o post, hahaha.

Echolilia é um livro de fotografias que um pai fez de seu filho autista. As imagens são fantásticas e transmite o pensamento e convivência com um autista que as palavras não conseguiriam descrever. Como disse o site “Time CNN”, Echolilia: uma conversa fotográfica de um pai com seu filho autista”.compre o seu

Em uma entrevista para o blog Callin Pantall, o fotógrafo e pai disse sobre como iniciou o projeto: “No outono de 2007 meu filho Eli estava com 5 anos e ele realmente estava deixando minha esposa e eu loucos. Seu comportamento estranho não fazia sentido, enormes crises de birra que era como se fosse uma tempestade, parecia que iria explodir toda a casa, as queixas e preocupações dos professores e dos cuidadores dele… tudo na minha vida naquele momento era voltado para Eli. “O que é isso? O que médico disse? Todo o meu tempo foi gasto tentando descobrir quem era Eli.   Eu não conseguia entendê-lo e nem suas motivações, provavelmente ele nos temia e o tempo que passávamos com ele não era assim… agradável. Eu sempre uso meus projetos de fotografia como uma fuga da minha vida real e gosto de me infiltrar nas outras culturas, que são diferentes de mim, gosto de aprender sobre elas, fotografá-las… A fotografia sempre foi uma fuga da minha própria vida. O livro foi apenas o final da corda, eu comecei a tirar fotos das coisas que ele criou, fotos dele, de suas provas e de seu comportamento em nossa casa. Eu pensei que talvez eu visse algo ou entendesse alguma coisa. Eu realmente não sei. Ao tentar escrever, muitos dizem: “escreve o que você sabe”. Então, nesse caos doméstico,  tentei fotografá-lo.

sou eu no livro

Para o site Feature Shoot, Tim respondeu sobre o fato de tornar sua vida com seu filho pública: 

Para mim, o poder de ter experiências é o compartilhamento da experiência. Ela pode ajudar os outros navegarem em suas próprias situações, pode parecer errado da minha parte compartilhar, pode tanto abrir portas como fechar também.  Meu livro anterior (Sex Machines: fotografias e entrevistas, 2005)  foi como antropologia social, enxergando outras vidas com a observação distanciada. Eu queria fazer algo menos literal, mais bonito, mais pessoal, mas com algum peso emocional para que as pessoas carreguem com elas. Através disso, o trabalho começou a se formar, parecia que eu poderia fazer todas essas coisas com ele.”

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feto

Explicando sobre o tempo das sessões fotográficas: “No início a sua atenção era muito curta, fazia as imagens em menos de 10 minutos  e verificava o que tinha feito… só fotografias muito selvagens. Como o projeto evoluiu e ele ficou mais velho e mais envolvido, começamos a usar o filme com uma câmera Hassleblad em um tripé com testes Polaroid e tal, e as vezes o tempo se estendia até 45 minutos. Mas não posso descrever o tempo preciso em que Eli tinha intenso foco para cada sessão de fotos:  movimentos corporais e gestos sutis sob controle magistral e foco total com o funcionamento da câmara Hassleblad, inserção de slides escuros e todos os rituais. É um foco muito intenso de sua parte… e eu só tenho que admirar

cheiro bom

 “As fotografias … bem, as melhores, evoluíram organicamente. Ele iria fazer algo, agir de determinada maneira, fazer algo com seu corpo e eu aproveitava o momento.  Nós, as vezes,  tentamos reservar um tempo para fazer isso em um lugar que tinha luz agradável, um local simples, um lugar especial e intencional. Os resultados sempre foram diferentes do que queríamos fazer, muitas vezes tínhamos  surpresas.  Claro que havia vezes que eu tive umas idéia que gostaria de prosseguir  e que realmente falhou e quase sempre parecia muito auto-consciente … tão óbvio que este fotógrafo profissional estava tentando estragar a foto, entende? Logo no início do projeto um amigo olhou e disse: “sabe, você precisa parar de dirigir as fotografias … deixá-lo livre e você obterá o que você está procurando.” Ele não poderia ter me dado o melhor conselho.”

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Timothy Archibald não pretende continuar com o projeto e explica: “Eu nunca quis ser um desses paizinhos que fotografa uma criança todo o tempo de vida. É  não é interessante para mim só ver a passagem do tempo.  Para mim, este “canal Echolilia” realmente capta esse momento em que eu estava realmente tentando olhar em meu filho e minha vida e tentar descobrir esse mistério, tentar compreender esta criança que eu tinha dificuldade em me harmonizar.  Acho que nós sentimos como se estivéssemos escavando numa exploração, trabalhando em conjunto para nos descobrir… e no final não tivemos nenhuma resposta … mas no meio de tudo, nós construímos uma ponte. Agora nós nos encontramos no meio dessa ponte e não há nenhuma necessidade de fazer mais imagens.”

sentimentos

O Link que a Olga viu foi tirado do blog  Bonito Isso e lá ela explica uma fala do pai sobre a foto abaixo, idéia do criativo Eli:

“Eli encontrou um tubo no meu escritório. Ele inseriu o braço no tubo e usava mancando pela casa. Então, ele sugeriu fazer algumas imagens com o tubo, uma muleta. Parecia que aquele objeto, para ele, poderia ser muitas coisas. Ele cria sentidos.”

protese

alo alo

Pra finalizar, ele explica o título do lívro para a Time CNN – “Echolilia” é uma grafia alternativa de um termo mais comum, “ecolalia”, usado na comunidade autista para referir o hábito de repetição verbal e cópia que é comumente encontrada no comportamento de crianças autistas. Eu gostei da idéia de que: a fotografia é uma forma de copiar. Crianças são uma forma de repetição. E olhando para o meu filho com a fotografia permitiu-me ver-me de novo.

E explica a imagem da capa (ve imagem no começo do post): No final da tarde, os ruídos eletrônicos começam. O barulho de um caminhão de lixo, os sons de um motor em alta velocidade, um forno de microondas… o som é muito alto.

“Você pode fazer os barulhos ficarem mais brandos, por favor?” 

Não, eu não posso.  Esse é o volume que a máquina cria. Não podemos mudar.

Acessem os links deste post e leia mais sobre esse maravilhoso trabalho.  Está em inglês mas um tradutor on line ajuda.  Acompanhem também o blog de T. A e veja mais sobre seu livro e seus outros trabalhos em seu site. Esperamos que tenham gostado. Troquei alguns e-mails com o autor do livro e ele me permitiu publicar suas imagens e divulgar esse projeto.

Esse post é dedicado a todos, em especial a todas as pessoas que se aventuram com uma máquina fotográfica na mão e eternizam os momentos importantes da vida. Dedicamos também ao nosso amigo Rúbens, que está a frente de um grande projeto, o Special Kids. Ele tem prazer no que faz e coleciona imagens emocionantes e maravilhosas. Como a internet é uma rede fantástica, vale destacar que conhecemos o Rúbens através de outra profissional desse meio, nossa amiga e amante das lentes: Beta Bernardo. Sempre que podem, ela e sua irmã Flávia, divulgam o autismo!