Recompensa não compensa!

*** Esse post é polêmico e se você não concorda com o conteúdo, apenas feche a página. Não temos o objetivo de convencer ninguém!***

Esse post tem a ver com autismo mas tem a ver também com educação! Sempre curtimos a educação responsiva, positivista e isso não é segredo pra ninguém. Somos SonRise Team antes de saber que o SonRise existia pois esse modo de ser positivas, empolgadas e incentivadoras das pessoas sempre esteve em nós. Somos entusiastas do Lu e vibramos com cada conquista que ele tem e aproveitamos o dia a dia dele, e suas tarefas para mostrá-lo como é importante persistir quando ele não consegue de primeira vez, como é importante ser corajoso para tentar e através do nosso exemplo, vibrando com os interesses dele, o inspiramos a também pensar em ouvir o coletivo, respeitando o próximo e querendo contribuir com a felicidade de todos. Nunca fomos a favor de “comprar” o Lu com recompensas. E o post de hoje é sobre isso pois anda circulando na net um bilhete de um pai que cortou a internet da filha e deixou muita gente empolgada…

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Porque as pessoas empolgam com esse tipo de estratégia? Primeiro porque somos criados em um mundo totalmente comportamental e massificado onde aprendemos que quem não se encaixa em um padrão merece um castigo e devemos apenas cumprir com nossas obrigações para ganharmos uma recompensa! Desde pequenos somos avaliados e temos que cumprir a nota média na escola, quando crescemos trabalhamos para ganhar dinheiro, a maioria dos empresários investem suas cotas de patrocínio pensando em retorno financeiro (poderiam pensam em ajudar a comunidade em que estão inseridos né?), pessoas fazem exercícios para ter um corpo bonito (encaixar no padrão da mídia), comem para compensar um dia estressante, etc… Ao longo de décadas esse pensamento nos acompanha e isso é uma vantagem enorme para a mídia que quer manipular a massa (todos iguais, quem discorda tá fora de moda, é louco ou “alternativo”…) e falar o que devemos ter para nos sentirmos incluídos.

Bom, vamos ao bilhete, que dá uma sensação de alívio aos pais que ACHAM que estão controlando seus filhos… falsa sensação de controle… uma fantasia!!! A primeira coisa que pensamos quando vimos a imagem: esse pai está tirando a menina de casa pois hoje tem internet em tudo quanto é lugar! E a segunda coisa que pensamos é:

Será que esse pai alguma vez na vida arrumou o quarto dele com prazer na frente de sua filha? Será que ele já lavou a louça em casa algum dia? Será que ele é um exemplo do ser humano que ele gostaria que a filha fosse? Será que se a filha ficar sem internet em casa ela pode deixar o quarto bagunçado e a louça acumulada? Essa realmente é uma troca boa?

Esse tipo de forma de disciplinar, além de revoltar algumas crianças que se sentem obrigadas a realizar uma tarefa apenas para atender uma expectativa do próximo pode trazer muitos outras falsas sensações e aprendizados perigosos que propiciam a falta de ética. Quer ver um exemplo?

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Nessa tabela as crianças recebem a mesada completa caso se comportassem bem e a cada “deslize” seria descontado um valor do pagamento. Essa “técnica” também viralizou na internet pois a sensação de controle dos pais vem a tona… Mas é claro que essa sensação não é verdadeira pois há mil e uma maneiras de burlar essas regras! A criança primeiramente, caso a ideia seja efetiva, fará o que deveria ser feito pelo simples fato de ser bom pra ela, para receber sua mesada integralmente. Ou seja, pelo dinheiro. O dinheiro é patrão dela e referência de sucesso… ela se tornará materialista e achará que o dinheiro é mais importante que tudo! Caso ela ache que vale a pena faltar a aula e pagar um real, ela estará em seu total direito… e ela aprenderá também que ir à aula é mais importante (dá mais dinheiro) que escovar os dentes ou guardar os brinquedos! Baseado em que o pai escolheu esses valores???

Então agora vamos entrar na questão do uso de reforçadores, bastante usada em algumas terapias para autistas (e crianças típicas também). Vamos por enquanto deixar de lado os reforçadores como guloseimas ou qualquer tipo de comida pois esse é um problema muito maior do que pensamos e caso abordemos esse tema no blog, ele merecece um post exclusivo.

Em muitas terapias, o uso do reforço é recorrente e por isso eles mesmos utilizam o termo “treinamento” para definir o que fazem pois o aprendizado é tido através da repetição e da recompensa para as respostas corretas que o paciente tiver, independente de seu entendimento da importância daquilo para sua vida ou para o coletivo. O que procura-se obter nessa terapia é um resultado satisfatório para o exercício. Esse resultado nada tem a ver com a pessoa fazer aquilo porque quer ou porque entendeu a importância daquilo mas sim dela cumprir com o que é esperado dela ou melhor, de ela cumprir com sua obrigação. Esses tipos de terapias ignoram a origem de um comportamento de negação ou de uma forma diferente de fazer do paciente pois elas se atém exclusivamente na intervenção do comportamento errado ou inadequado (aqui podemos ler comportamento não esperado pelo terapeuta), a fim de modificá-los, ou seja, eliminar esses comportamentos indesejáveis (palavra correta pois o desejo parte apenas do terapeuta) e da instalação (na linguagem da análise do comportamento) de novos comportamentos que não fazem parte do repertório do indivíduo para aumentar a frequência de comportamentos desejáveis que já fazem parte de seu repertório. Treinamento é a palavra mais correta mesmo para esse “ganho” pois o paciente deve se encaixar ali, como uma máquina em que você aperta o botão e ela realiza o processo (para não fazer outras comparações mais polêmicas!) Inclusive já até escutamos em uma palestra sobre um método comportamental uma terapeuta explicar sobre o espectro autista usando termos como “autistas mais estragadinhos” e “autistas menos estragadinhos” e falando que o método ia modificando e consertando aquela pessoa… mas o pior não eram esses termos e sim que ver que o exemplo de ser humano perfeito na linha dos níveis de autistas era a foto dela.

Não há empatia nenhuma durante esse processo pois a única necessidade atendida é a do terapeuta e o objetivo maior é o alívio dos familiares.

Esse vídeo mostra claramente como somos ensinados a encaixar em padrões e a esperar por recompensas quando fazemos algo. Quando alguma mãe reclama de seu filho autista por exemplo ela quase tem que pedir desculpas por estar frustrada ou cansada já que o comportamento esperado dela é que ela tenha sucesso em seus afazeres e não cause problemas a ninguém pois assim estaria saindo fora do padrão. As terapias comportamentais consideram que os sentimentos são aprendidos e que são correlatos aos comportamentos observáveis, não sua causa… então todos nós aprendemos que devemos melhorar o ambiente a volta dos que estão com problemas para resolver aquilo pois assim a pessoa volta a funcionar corretamente. Não devemos reforçar aquele sofrimento ou aquele comportamento inadequado… Então como a maioria reage a um problema do próximo? Oferecendo um sanduíche, uma xícara de chá ou soluções imediatistas que façam com que a pessoa apenas pare de reclamar! Fomos ensinados culturalmente a encaixar em padrões (não podemos nos surpreender dessa forma que o machismo e outras culturas preconcietuosas existam pois desconstruir é complicado já que esses comportamentos foram reforçados durante décadas… e quem pensa nisso é porque teve uma educação libertadora! Diferente dessa que o comportamental propõe)

Esse ensinamento é aplaudido por muitas pessoas pois ele traz resultados rápidos já que ao fazer o esperado o paciente pode brincar com o que mais gosta ou pode ter uns minutos de prazer e assim ele vai aprendendo a agradar as pessoas (um perigo por sinal pois se torna uma presa fácil para manipulações já que ele se acostuma a não considerar suas vontades).

Qual a diferença dessa tabela feita pelo pai de crianças típicas para as tabelas da Super Nanny, muito utilizadas por familiares de autistas, com o uso de estrelas para conseguir o que se quer? Nenhuma! As crianças farão suas responsabilidades apenas para ganhar seus prêmios e notarão como é fácil assumir o controle disso tudo!

lousa de incentivo photo lousaeducacional-supernany_zpsxor8ocv0.jpg

Ser aplaudido apenas nos momentos que acertamos ou cumprimos com o que é esperado, gera uma vontade muito grande de ficar na zona de conforto ou uma sensação de que não sou amado quando “erro”, tenho algum problema ou não ajo conforme o esperado. Para continuar ganhando o que quero eu fico dentro do que sei fazer bem, ignorando o fato de que posso ir além, de que posso colaborar mais se tentar algo inovador.

Dra. Dweck realizou uma série de quatro testes com 400 alunos da 5ª série de uma escola de New York. O primeiro teste era um quebra-cabeças extremamente simples para crianças dessa idade. Como era esperado, todas as crianças conseguiam realizá-lo facilmente. Nenhuma surpresa até aqui…

Mas é aí que começa a parte interessante da pesquisa. Cada vez que uma criança completava o teste, a pesquisadora lhe informava a sua nota e fazia um curto elogio. Metade das crianças eram elogiadas pela sua inteligência: “Uau, você deve ser muito esperto!”. Já a outra metade era elogiada pelo seu esforço: “Uau, você deve ter se esforçado muito!”

Logo na segunda tarefa, as diferentes consequências desses dois tipos de elogios começavam a aparecer. Agora, a pesquisadora perguntava se a criança desejava um teste do mesmo nível do primeiro ou se preferia algo um pouco mais difícil e desafiador. Adivinhou? As crianças “inteligentes”, evitando colocar sua imagem em risco, preferiam o teste mais simples, enquanto as crianças “esforçadas” pediam o teste mais difícil.

Na terceira etapa, a coisa se complicava. Todas as crianças receberam outro quebra-cabeças, dessa vez bastante complexo, projetado para crianças dois anos mais velhas. Inevitavelmente, todas falhavam. Entretanto, a atitude frente ao fracasso também foi significativamente diferente entre os dois grupos. Os “esforçados” persistiram por muito mais tempo, assumiram a responsabilidade pela falha e muitos (mesmo sem a pesquisadora perguntar) afirmaram que esse foi seu teste favorito. Já os “inteligentes” desistiam mais rapidamente. Além disso, assumiam a falha como uma prova de que na verdade não eram inteligentes como haviam sido levados a crer. Ou seja, o primeiro fracasso foi suficiente para fazer sua auto-estima despencar. “Bastava observá-los para ver a tensão.” descreveu a Dra. Dweck, “Eles estavam suando e se sentindo miseráveis”.

Alguns terapeutas comportamentais ignoram os comportamentos “inadequados” desviando a atenção da criança para uma ação dentro de sua zona de conforto para que ela receba um elogio no momento, reforçando assim uma ação “adequada” e elas também não trabalham com erros (antecipando a ação com a resposta certa ou dando dicas). Esse bater palmas e elogiar apenas o comportamento positivo traz, além de um reforço forçado (pois as comemorações vão ficando automáticas e assim vão perdendo forças), uma necessidade muito grande de reconhecimento. Isso não acontece apenas com autistas que passam por esse tipo de terapia mas com todos nós pois vivemos em uma cultura comportamental e massificada (pela TV, pela escola, pelos nossos familiares, etc)… Acham que as redes sociais fazem esse sucesso todo por que? Achamos até engraçado pois muitas pessoas que amam as terapias comportamentais reclamam que na internet são compartilhadas apenas as coisas bonitas e alegres… por que será? Será realmente que o mundo nos deixa a vontade para ser quem somos? De onde vem tanta necessidade de curtidas e aplausos?

Ao comemorarmos as conquistas de forma genuína, realmente interessados naquela aprendizagem, mostramos à pessoa que realmente nos importamos com aquele sucesso e que sabemos que ele veio através do esforço pois participamos ativamente do processo de conquista. Realmente nos colocamos no lugar daquela pessoa e valorizamos o caminho seguido. Então, encorajar as pessoas a tentarem, mesmo tendo dificuldades, faz com que elas acreditem que são capazes e muito mais do que isso, são amadas em todos os momentos. Não há porque esconder um erro ou porque fazer uma coisa que não se quer apenas porque tem que ser feito, porque é esperado.

A criança educada na responsividade e na educação positiva sabe que é apoiada em todos os momentos e que tentar e persistir é muito mais importante que acertar e que falhar não é o fim do mundo, está tudo bem, sem problemas! Seus pais e terapeutas a respeitam e estão ali ao lado independente de qualquer coisa e mais do que isso, eles também falham e pedem desculpas caso isso aconteça! Nessa forma de educar, as comemorações acontecem não só ao final do processo: há os elogios a coragem de tentar e persistir e há os elogios descritivos ao final do processo (falando o que está percebendo para mostrar que realmente está envolvido: Ex – “Uau, eu entendi, você falou aua para água!” ao invés de ficar repetindo apalavra água enquanto nitidamente a criança se esforça para falar água / Ex2: “uau, vejo que se esforçou fazendo seu desenho, com árvores grandes e uma casa colorida! Ficou bem desenhado! O que podemos colocar no céu para aquecer e iluminar a paisagem?”; ao invés de “falta alguma coisa no céu desse desenho… melhore e traga para eu ver”).

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Essas comemorações melhoram a relação entre as pessoas e no caso de autistas, evitam isolamentos (autistas se isolam por medo de errar ou se frustar ou frustrar o outro e por isso mesmo isso deve ser desmistificado para ele) e ensinam o autista se controlar emocionalmente, já que percebem que errar é natural e que todos a sua volta passam por processos de tentativas e chegam ao resultado desejado após persistirem, se dedicaram bastante com pesquisas, estudos e experimentos.

Os pais precisam entender com urgência que uma birra ou uma negação não é uma atitude pessoal, que acontece como uma forma do filho mostrar quem manda ou para controlar os pais. Um filho pode se negar a fazer algo simplesmente para se sentir diferente dos pais (isso acontece em uma pessoa típica por volta dos 3 anos de idade, quando ele descobre que é um indivíduo que pode fazer coisas diferentes das que os cuidadores fazem), por estarem cansados, por se sentirem com medo ou ameaçados, sem saber o que fazer ou sem saber como comunicar todas essas hipóteses (aqui se encaixam bebês típicos e autistas, principalmente os não verbais) ou seja, seus sentimentos. Já ouvimos dezenas de relatos de autistas “mau comportados” que tinham problemas dentários, nos rins, intestino entre outros.

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Ao ignorarmos essa comunicação, seja ela vinda de uma criança autista ou de uma criança típica, ignoramos seus sentimentos, não a ajudamos a lidar com seus problemas e não somos empáticos, resolvendo apenas nosso problema (acabar com a birra). Ao revidarmos, caímos na tentadora armadilha de disputa de controle (em que perderemos a guerra pois eles tem muito mais energia que nós, por serem mais novos ou no caso de autistas, nem precisamos explicar… a maioria é ligada no 220 e não desiste fácil!) ou, no pior dos casos, nossa tendência é impor e mostrar quem manda, ensinando que o mais forte sempre vence (essa criança vai crescer tá bom?) e que poder tem a ver com imposição e não com flexibilidade (qualidade que precisa ser trabalhada e precisamos dar o exemplo né? Se não, seremos contraditórios).

Deu pra perceber que somos totalmente contra castigos ou punições né? Assunto para um próximo post pois isso dá pano pra manga! Em caso de autistas, principalmente não verbais, queremos deixar bem escrito aqui que as “birras” podem ser desconfortos biológicos (mais de 85% dos autistas tem como comorbidade o intestino permeável e as alergias, que causam dores, irritabilidade e confusão) e ficar de castigo, apanhar ou ser ignorado por sentir dor é uma injustiça muito grande.

Bom, para finalizar esse post, que é um alerta a favor da educação da liberdade, propomos algumas perguntas para o leitor:

- Você alguma vez já se perguntou: “o que eu ganho com isso?” ao ouvir uma proposta?
- Você alguma vez achou ruim de seu marido te jogar na cara que ele põe tudo em casa então ele quer que você não reclame de nada pois você tem empregadas, um cartão de crédito ou um carro e que sua obrigação é cuidar da casa?
- Alguma vez você ouviu de um chefe que você não é paga pra pensar e sim para fazer?
- Alguma vez você teve seu pagamento descontado por faltar o trabalho, mesmo apresentando uma justificativa plausível?
- Você já fez as contas de quantos pontos precisava pra passar de ano e nem se importou para o conteúdo da escola pois o importante era ser mediano?
- Alguma vez você achou que ser chamado de esforçado ao invés de inteligente era um xingamento?
- Você já pensou em fugir de casa por medo de seus pais ou até em se matar para não enfrentar um castigo?

E a última pergunta do post é? O que você espera da educação de seu filho autista? Se você responder que quer que ele tenha autonomia, valores humanos e seja uma boa pessoa, repense nesse sistema de recompensas! Esse sistema cria pessoas egoístas que só fazem o que tem que fazer se houver vantagens. É prazeroso estar ao seu lado? É gostoso dividir tarefas com você? Você é um exemplo do que quer que seu filho seja? Essas perguntas sempre devem ser feitas! Autistas muitas das vezes são exigidos de coisas que nem um adulto típico realiza.

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Qual a alternativa para abrir mãos do sistema comportamental? Educação positivista, responsiva, respeitando os valores e o ser individual que cada um de nós somos. Nós adoramos o modo como o programa SonRise educa, adoramos ter conhecimento da Comunicação Não Violenta e de como ela trabalha nosso olhar para nossas necessidades e para as necessidades dos outros e conhecemos há 3 anos a Antroposofia e educação do espírito. Indicações de caminhos para um pensar mais livre!

Fontes:

Imagens:
iceberg
Foto família
Tabela de Incentivo
Bilhete Pai
Tabela Mesada

Texto:
A Arte de Educar
Sandra Coordenadora
Gestão Escolar
Rescola <— Clique nesse link para ver um vídeo em inglês da experiência da Dra. Dweck

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