Vamos refletir! – Disbicicléticos

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Dani é uma criança que não sabe andar de bicicleta. Todas as outras crianças do seu bairro já andam de bicicleta; os da sua escola já andam de bicicleta; os da sua idade já andam de bicicleta. Foi chamado um psicólogo para que estude seu caso.

Fez uma investigação, realizou alguns testes (coordenação motora,força, equilíbrio e muitos outros; falou com seus pais, com seus professores, com seus vizinhos e com seus colegas de classe) e chegou a uma conclusão: esta criança tem um problema, tem dificuldades para andar de bicicleta. Dani é disbiciclético.

Agora podemos ficar tranqüilos, pois já temos um diagnóstico.Agora temos a explicação: o garoto não anda de bicicleta porque é disbiciclético e é disbiciclético porque não anda de bicicleta. Um círculo vicioso tranqüilizador.

Pesquisando no dicionário, diríamos que estamos diante de uma tautologia, uma definição circular. “Por qué la adormidera duerme? La adormidera duerme porque tiene poder dormitivo”. Pouco importa,porque o diagnóstico, a classificação, exime de responsabilidade aqueles que rodeiam Dani. Todo o peso passa para as costas da criança. Pouco podemos fazer. O garoto é disbiciclético! O problema é dele. A culpa é dele. Nasceu assim. O que podemosfazer?

Pouco importa se na casa de Dani seus pais não tivessem tempo para compartilhar com ele, ensinando-o a andar de bicicleta. Porque para aprender a andar de bicicleta é necessário tempo e auxílio de outras pessoas.
Pouco importa que não tenham colocado rodinhas auxiliares ao começar a andar de bicicleta. Porque é preciso ajuda e adaptações quando se está começando. Pouco importa que não haja, nas redondezas de sua casa, clubes esportivos com ciclistas com quem ele pudesse se relacionar, ou amigos ciclistas no bairro que o motivassem. Porque, para aprender a andar de bicicleta não pode faltar motivação e vontade de aprender. E pessoas que incentivem!

Pouco importa, enfim, que o garoto não tivesse bicicleta porque seus pais não puderam comprá-la. Porque para aprender a andar de bicicleta é preciso uma bicicleta. (Felizmente, os pais de Dani,prevendo a possibilidade de seu filho ser disbiciclético, preferiram não comprar uma bicicleta até consultar um psicólogo.)

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Transportando este exemplo para o campo da síndrome de Down, o processo é semelhante. Desde quando a criança é muito pequena,apenas um recém-nascido, é feito um diagnóstico – trissomia do cromossomo 21 – por um médico especialista, e verificado, com uma prova científica, o cariótipo. A partir disso, entramos em um círculo vicioso no qual os problemas justificam o diagnóstico, o qual, por sua vez, é justificado pelos problemas.

Por que a criança não cumprimenta, não diz bom-dia quando chega, nem adeus quando vai embora? “É que ela tem síndrome de Down”. Ah, bom! Achei que era mal-educada.
Por que a criança não se veste sozinha, e sua mãe a veste e despe todos os dias, se já tem oito anos? “É que ela tem síndrome de Down”. Ah, bom! Pensei que não lhe tinham ensinado.

Por que continua a tomar mamadeiras se já tem seis anos? “É que ela tem síndrome de Down”. Ah, bom! Imaginei que era comodismo de seus pais.
Por que a criança não sabe ler? “É que ela tem síndrome de Down”. Ah, bom! Pensei que não lhe haviam ensinado.

Por que não anda de ônibus ? “É que ela tem síndrome de Down”. Ah, bom! Pensei que não lhe permitiam fazer isso.
E, assim, uma lista interminável de supostas dificuldades que, por estarem justificadas pela síndrome de Down, não necessitam de nenhuma intervenção, além da resignação. Todas as suas dificuldades se devem à síndrome de Down.

Podemos estender a qualquer outra deficiência em que o diagnóstico médico ou psicológico possa ser utilizado como desculpa para nos eximirmos de responsabilidades. Se classificamos a criança como disfásica, disléxica, discalcúlica, disgráfica, deficiente visual ou auditiva, mental ou motora, disártrica ou simplesmente disbiciclética, estamos fazendo algo mais do que “colocar um nome” no que pode acontecer com uma criança. Estamos criando expectativas naqueles que a cercam.

Por isso, eu sugiro que antes de comprar uma bicicleta para seu filho ou sua filha, comprove que não sejam disbicicléticos. Vá que aconteça imediatamente após a compra dar-se conta de que se jogou dinheiro fora?

Emilio Ruiz Rodriguez Psicólogo na Fundação Down Cantabria, na Espanha

Faz tempo que não trazemos um texto para reflexão e hoje o texto é belíssimo, rico e muito importante. Quantas vezes não vemos o que está no texto acontecer ou nós mesmo não colocamos em prática? Vamos mudar nossa atitude e acreditar que todos são capazes, basta a gente permitir e incentivar.

9 ideias sobre “Vamos refletir! – Disbicicléticos

  1. Flavia Bernardo

    Adoreeeeei o texto! Qdo li o termo disbicicletico no twitter imaginei q fosse isso mesmo, algo referente a bicicleta, mas q grata surpresa ler o texto e ver o que ele pôde transmitir a nos!
    Perfeito.

    Bjs, Flavia

  2. Cláudia Ramalho

    Meninas, adorei o texto e me fez lembrar do quanto penei para ensinar minha Clarinha a andar de bicicleta. Nenhum mérito vem sem esforço. Nada cai do céu e ser pai e mãe é isso: se esforçar junto.
    Olha, o espaço do Feito a Mão está aberto. Quando quiserem, podem me enviar o e-mail com o texto que a Karla falou, ok? Será um prazer emprestar meu espaço para tão nobre causa.
    Bjks

  3. Martim Fanucchi

    Olá Meninas! Olá Luiz! Visitando aqui o blog de vocês me deparei com esse texto maravilhoso que nos incentiva a fazer mais pelos nossos queridos indivíduos autistas. Superar é essencial. Paciência é essencial. Mas há um elemento aí sem o qual qualquer esforço se torna inútil: trata-se de amor. Se você não se doar de verdade, doar por amor, todo e qualquer esforço é em vão… Jujú ainda não sabe andar de bicicleta. Ainda não “aprendeu” que pedalando ela consegue se locomover. Já andei (acho) kilômetros, abaixado, ajoelhado ou de cócoras tentando fazê-la aprender e não vou desistir nunca. Porque sabemos o valor de cada conquista! Parabéns pela escolha do belo texto. Bjus pra vcs!!!

  4. Cláudia Gimenes

    Luiza, bom dia!
    Estava visitando blogs amigos e encontrei o de vcs!!!
    Amei!!!
    Excelentes o texto e o blog!!!
    Estou te linkando no meu e te seguindo!!!

    bjs e tenham um excelente dia!!!

    Cláudia

  5. SILMARA

    Olá,
    Ontem participei de uma palestra onde foi sugerido a leitura do texto, como educadora, mãe, tia, amiga… percebo que o mesmo condiz com nossas relalidades!!! Vamos dar chance aos nossos pequeno, eles nos surpriendem!!!

  6. Dinha

    Obrigada por compartilharem um texto tão profundo conosco!
    De minha parte prometo que vou me esforçar ao máximo para rotular meu Caio como um disbiciclético… Muito obrigada, mesmo!
    Um grande beijo a todos vocês!

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